☕ “Temos que ser mais humanos do que nunca”, diz educador espanhol sobre influência de IA e mudanças climáticas
#54: Nesta entrevista exclusiva, Xavier Aragay antecipa pontos que apresentará em sua palestra na Jornada Bett Nordeste 2025
Se engana quem imagina que inovar na educação tem simplesmente a ver com o uso de telas, IA e novas tecnologias. Claro que esses também são pontos importantes. Mas, para o educador espanhol Xavier Aragay, o debate não é se haverá mais ou menos telas, e, sim, que tipos de seres humanos queremos formar para o futuro.
“Diante das novas tecnologias de IA que temos visto surgir, o foco deve ser o desenvolvimento humano. Precisamos ser mais humanos do que nunca. Diante da crise ambiental, é essencial voltar a valorizar a vida e as pessoas ao nosso redor”.
Nesta entrevista exclusiva para a Intervalo, Aragay antecipou alguns pontos que apresentará em sua palestra na Jornada Bett Nordeste 2025.
O especialista, que é presidente e consultor da Reimagine Education, atuando na liderança de projetos internacionais de inovação e transformação educacional, fala sobre o descompasso entre o modelo escolar atual e as necessidades do mundo em que vivemos, aponta tendências para o futuro da educação e desenha a escola do futuro: “um lugar onde a vida real entra, ao invés daquele onde parece que tudo está sempre se repetindo”.
Confira os principais trechos.
Xavier Aragay estará no Brasil no final de agosto. Crédito: divulgação
Especialistas como você tem apontado a necessidade de uma transformação educacional, alinhada ao século XXI. Essa transformação já está acontecendo?
Sim, já está acontecendo, e é importante que educadores, diretores e gestores tomem consciência de que o processo de ensinar e aprender que temos hoje ainda é – em sua maioria – uma herança de mais de cem anos.
Muitas vezes, fazemos pequenas inovações, mas seguimos com um modelo que foi inventado no final do século XIX, baseado na ideia de que o professor fala e o aluno escuta. Essa estrutura nasceu na época da industrialização e do enciclopedismo. Hoje, existe um abismo entre o que crianças e jovens vivem fora da escola — com os meios tecnológicos e sociais — e o que encontram dentro dela. E isso não faz sentido.
O ponto é que ainda parece haver pouca consciência sobre isso em países como Brasil e Portugal, por exemplo. Parece que a escola é uma paisagem fixa quando, na verdade, não é.
O que fazer para mudar?
O primeiro passo é tomar esta consciência. Quando entendemos isso, percebemos que a transformação [de modelo] será enorme. A neuroeducação e a neurociência já nos indicam isso, quando mostram que é impossível que 30 alunos aprendam a mesma coisa no mesmo momento, por exemplo.
Que habilidades são necessárias nesse novo cenário?
O elemento central dessa mudança é decidir que tipo de pessoa queremos educar. Já não se trata apenas de transmitir conhecimentos. Já estamos transmitindo muita informação. Se trata de decidir que habilidades, valores e competências uma pessoa que vive no século XXI precisa desenvolver para viver neste tempo.
Queremos uma pessoa crítica, cooperativa, que saiba quem é e que projeto de vida deseja para si, que saiba cooperar com os outros, que seja criativa. Ter bons resultados acadêmicos não garante nada hoje. Para viver em um mundo que vive uma crise ecológica, econômica, política, geopolítica, social – ou seja, um momento de grandes mudanças – é preciso habilidades e competências que a mera transmissão de conhecimentos não assegura.
Portanto, o mais importante é que escolas e universidades se perguntem: qual é o objetivo? Queremos que sejam cooperativos ou individualistas? Queremos que sejam criativos e críticos ou não? Que acreditem em tudo que o professor diz ou não? E a impressão que tenho é que, apesar de já existirem centenas de escolas e universidades avançando nisso, a maioria ainda não está. A maioria segue presa na inércia de reproduzir o que se tem feito desde sempre.
Outro ponto é que o aluno passe de ser um sujeito passivo para ser o protagonista do seu caminho de ensino e aprendizagem. Ao invés de ir à aula e esperar que o professor me diga o que fazer e o que aprender, vou em busca de atuar em projetos interdisciplinares, analisando, investigando e resolvendo problemas complexos da vida real. Tudo isso [tenderá a ser feito] com o auxílio de tecnologias de IA, que poderão não nos substituir, mas, sim, nos ajudar – e muito.
Qual a relação destas mudanças com o uso consciente de telas?
Está totalmente relacionado. O grande erro é usar a tecnologia pela tecnologia, sem definir um propósito. Primeiro, precisamos definir que tipo de pessoa queremos formar; depois, o modelo educativo que garante isso; e, só então, escolher a tecnologia que apoia esse objetivo. Se quisermos desenvolver cooperação, usaremos as telas de forma cooperativa. A tecnologia não é neutra — é preciso saber colocá-la a serviço de um objetivo claro.
Como definiria a escola do futuro?
Sonho na escola como um lugar apaixonante para ir todos os dias, e não entediante, onde às 9h me ensinam história, às 10h me explicam matemática e às 11h, inglês. Não é um lugar para seguir horários fixos de matérias, mas sim um lugar onde o aluno vai como sujeito ativo e protagonista, para descobrir interesses, investigar, criar e colaborar com o coletivo. Onde vai usar as tecnologias para investigar projetos, apresentar trabalhos, construir maquetes, criar pôsteres, e não apenas fazer provas. É onde a vida real entra e me desenvolvo estimulando o pensamento crítico, ao invés de um lugar no qual parece que tudo está sempre se repetindo, numa inércia, sem me trazer nenhum tipo de interesse.
Como a IA e a crise climática influenciam nesse novo paradigma educacional?
Estes são fatores externos, que reforçam a importância de focar no desenvolvimento humano integral. A grande mudança do século XX para o XXI é deixar de transmitir apenas conhecimentos para formar pessoas de forma integral. Diante das novas tecnologias de IA que temos visto surgir, o foco deve ser o desenvolvimento humano. Precisamos ser mais humanos do que nunca. Diante da crise ambiental, é essencial voltar a valorizar a vida e as pessoas ao nosso redor. O conteúdo é importante, mas não pode ser o único foco — é fundamental aprender a aprender, saber quem somos e o que podemos oferecer ao mundo.
O importante é aprender a aprender – saber quem eu sou, o que me interessa, o que é isso que carrego dentro que posso oferecer à humanidade, minha criatividade, minha iniciativa, isso é vital, e nos perdemos em currículos incríveis, em notas, em matemáticas que, no final, esmagam a pessoa.
O importante, portanto, é que a educação coloque o foco onde nunca deveria ter tirado: na ideia de que educar é muito mais do que só ensinar e aprender as coisas. Se colocarmos a obsessão pelo conteúdo no currículo, faremos que nem no filme Matrix: vamos encontrar a entrada USB, colocar o currículo e pronto.
Estamos indo em direção a uma educação com mais ou menos telas?
Nem mais, nem menos. Haverá telas, é um fato. Se forem necessárias muitas, colocaremos muitas. Se forem necessárias poucas, colocaremos poucas, na medida certa. O debate sobre mais ou menos telas é um debate artificial, absurdo e sem sentido. O que importa é para que e como usamos e usaremos essas telas, levando em conta que elas devem ser consistentes com o modelo educacional e o tipo de pessoa que queremos educar.
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No Brasil, temos visto grupos sociais apoiando a criação das chamadas escolas cívico-militares, com forte apelo à disciplina, por exemplo. Como vê esse cenário?
Em um cenário de tantas crises que vive a humanidade, essa é uma reação de medo ao futuro: busca-se segurança no passado, voltando à disciplina rígida e à ordem, como se isso fosse a solução. Mas muitas escolas estão em outro caminho — o da inovação, pesquisa e experimentação. Entre esses dois extremos, há uma grande parte que ainda não tomou consciência da necessidade de mudança e teme o futuro. Nosso objetivo é incentivar esse grupo a inovar.
No fim, só temos duas grandes opções: uma é voltar atrás: como o futuro me dá medo, olho para trás, volto à disciplina e à ordem. Então, temos escolas nos Estados Unidos, aqui na Espanha, em Portugal também, no Brasil, que dizem: ‘Não, não, não, não! Tudo isso de inovação é um erro. Temos que voltar à disciplina, à ordem!. Temos que pôr um policial em cada aula’.
E qual é a outra opção?
A outra alternativa é olhar para frente. Em todos os países também há experiências de escolas que estão neste caminho, que é o da inovação, investigação, experimentação, troca e da construção da verdadeira escola que precisamos no século XXI.
Mas, num terceiro ponto, temos também uma maioria, que está entre esses dois extremos, que não ainda não tomou consciência, que tem medo do futuro, mas que também já notou que o dia a dia em uma escola se tornou mais complexo do que antes. São essas escolas que queremos incentivar que tomem consciência sobre sua realidade e que se atrevam a andar pelos caminhos da inovação.
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Esta edição especial da Intervalo faz parte da parceria entre Lupa e Bett Brasil. Xavier Aragay, entrevistado desta edição, é um dos convidados da edição Jornada Bett Nordeste 2025, que acontece nos dias 27 e 28 de agosto, em Recife. Saiba mais.





